Há dois anos, Leopold Aschenbrenner argumentava ser uma das poucas pessoas no mundo que enxergavam o futuro com clareza. Em um ensaio de 165 páginas que se tornou leitura obrigatória no Vale do Silício, o ex-pesquisador da OpenAI se posicionou como uma espécie de profeta da era da superinteligência artificial.
Nesta semana, porém, os limites dessa visão ficaram expostos quando o fundo de hedge com tema de IA que ele administra, chamado Situational Awareness, enfrentou a realidade da queda das ações de semicondutores e das chamadas de margem de Wall Street. No início deste mês, o fundo chegou a ter US$ 45 bilhões em ativos. Na quinta-feira, após ser forçado a vender todas as suas apostas alavancadas, incluindo nomes como SK Hynix e CoreWeave, para a Citadel, de Ken Griffin, com desconto, os ativos do fundo caíram para cerca de US$ 10 bilhões, segundo pessoas com conhecimento da situação.
A ascensão e a queda repentina de Aschenbrenner chamaram a atenção de Wall Street e do setor de tecnologia, tornando-o a baixa mais visível da volatilidade que acompanha o boom da IA. Antes do declínio deste mês, o Situational Awareness acumulava ganhos de mais de 1.000% desde sua criação, conforme noticiou o The Wall Street Journal no mês passado. O jornal destacou que Aschenbrenner tinha apenas 24 anos.
Críticos apontam que Aschenbrenner não tinha experiência em gestão de dinheiro antes de lançar o fundo em julho de 2024. Alguns notaram que seu início de carreira foi na extinta empresa de criptomoedas FTX, onde ajudou o fundador Sam Bankman-Fried a administrar uma instituição de caridade. Ex-operadores de bancos globais disseram que, considerando relatos de que o Situational Awareness usava até 400% de alavancagem, o colapso não foi surpreendente.
Antes da venda para a Citadel, cerca de dois terços das posições do fundo estavam em ações públicas, e o restante em participações em empresas privadas, dominadas por um investimento de bilhões de dólares na Anthropic. O quase colapso do fundo coincide com o casamento do gestor, marcado para este fim de semana. Aschenbrenner é noivo de Avital Balwit, chefe de gabinete do CEO da Anthropic, Dario Amodei.
Nascido na Alemanha, Aschenbrenner pulou várias séries no sistema escolar alemão, formou-se no ensino médio aos 15 anos e, na Universidade Columbia, chamou atenção por um artigo acadêmico intitulado "Existential Risk and Growth". Em 2023, entrou para o time Superalignment da OpenAI, trabalhando com Ilya Sutskever. Em 2024, foi demitido após ser acusado de compartilhar informações confidenciais, o que ele contesta.
Semanas após sair da OpenAI, Aschenbrenner transformou sua breve experiência na empresa em uma visão ampla sobre o futuro da inteligência artificial. Seu ensaio de junho de 2024 argumentava que a inteligência artificial geral poderia chegar em poucos anos e que os governos subestimavam o ritmo do progresso. Em julho daquele ano, ele usou sua fama crescente para levantar capital para seu fundo, com um aporte reportado de US$ 225 milhões dos cofundadores do Stripe, Patrick e John Collison, do ex-CEO do GitHub, Nat Friedman, e do investidor Daniel Gross.