O geógrafo britânico John Anthony Allan propôs, nos anos 1990, o conceito de “água virtual”. A expressão designa o volume de água utilizado em toda a cadeia produtiva de um bem. Essa água não está fisicamente presente no produto, mas foi indispensável para sua existência. Segundo a ideia, os países comercializam água de forma invisível junto com grãos, carne, minérios e energia.
A água virtual está presente em ações cotidianas. Vestir uma camiseta de algodão consome água do cultivo e do processamento têxtil. Tomar café consome a água que sustenta o cafeeiro. Abastecer um carro também consome água, mesmo que ela não seja visível na bomba de combustível.
No Brasil, o conceito ganha dimensão quando aplicado às cidades e à produção de etanol de cana-de-açúcar. Para entender essa conexão, recorre-se ao conceito de urbsistema. Inspirado na noção de ecossistema, um urbsistema é um sistema que importa bens, utiliza energia e água, transforma insumos em serviços e gera resíduos. A cidade é um sistema metabólico: importa energia, água e materiais, processa-os, presta serviços e gera resíduos. A qualidade de seu funcionamento depende da harmonia entre subsistemas como transporte, energia, abastecimento hídrico, saúde, comunicação e finanças. Perturbações em um componente podem afetar o conjunto.
O etanol não é apenas um combustível renovável, mas um fluxo metabólico dos urbsistemas. Grande parte da mobilidade urbana depende da energia produzida nos campos de cana. Essa energia carrega água virtual.
Na análise de água virtual, distinguem-se três categorias. A água verde é a água da chuva que se infiltra no solo e é absorvida pelas plantas. A água azul é retirada de rios, lagos ou aquíferos. A água cinza é o volume necessário para diluir poluentes gerados na produção até níveis ambientalmente aceitáveis, sendo um indicador da carga ambiental.
No caso da cana-de-açúcar cultivada no Centro-Sul do Brasil, a maior parte da água envolvida é verde. A cultura depende das chuvas sazonais. O etanol incorpora precipitação biologicamente convertida em biomassa. Abastecer um veículo em São Paulo com etanol significa consumir chuva que caiu meses antes sobre os canaviais.
Essa constatação altera o entendimento do metabolismo urbano. A cidade não é hidrologicamente autossuficiente. Depende de territórios agrícolas que capturam energia solar e água atmosférica, transformando-as em energia utilizável. O campo funciona como extensão funcional do sistema urbano. A usina de etanol é um órgão de transformação metabólica. A cidade metaboliza o combustível e o converte em mobilidade, circulação de mercadorias, trabalho e serviços.
Comparando com outras rotas energéticas, o etanol de milho também pode depender de água verde em sistemas de sequeiro, mas tem menor rendimento energético por área. Com irrigação suplementar, aumenta a participação da água azul, elevando a pressão sobre recursos hídricos. A gasolina não depende de fotossíntese, mas usa água no refino e gera efluentes associados à água cinza. Mesmo combustíveis fósseis têm dimensão hidrológica.
A diferença está na natureza do fluxo. No etanol de cana, a base é água verde — chuva integrada ao ciclo agrícola. A mobilidade urbana brasileira está ancorada ao regime pluviométrico regional. A estabilidade do transporte depende da regularidade das chuvas.
Isso revela a vulnerabilidade dos urbsistemas. O risco hídrico urbano não é apenas a falta de água nos reservatórios. Uma seca prolongada pode afetar a produção agrícola que sustenta a matriz energética. A água virtual amplia o conceito de risco urbano.
Os urbsistemas são redes complexas de subsistemas interdependentes. Água, energia, transporte, saúde e comunicação interagem. Se o sistema energético é afetado por variações climáticas, os efeitos podem se propagar. O metabolismo da cidade incorpora ciclos naturais fora de seus limites administrativos.
Sob a ótica da fisiologia urbana, a cidade transforma fluxos naturais em fluxos sociais. A chuva vira biomassa, biomassa vira combustível, combustível vira mobilidade, e a mobilidade sustenta a economia. O urbsistema não substitui a natureza, apenas reorganiza seus fluxos.
Com as mudanças climáticas, alterações na distribuição das chuvas e eventos extremos podem afetar o abastecimento urbano e a produção agrícola. A estabilidade do urbsistema depende dos ecossistemas que o cercam.
Além disso, o uso de fertilizantes gera cargas de poluentes associadas à água cinza. A expansão da produção pode retroagir sobre o ciclo hidrológico. O metabolismo urbano, ao demandar energia, influencia o uso do solo e a hidrologia regional.
Reconhecer a água virtual como componente estrutural dos urbsistemas é necessário para uma visão integrada das transições climáticas. Não basta discutir a matriz energética apenas pelas emissões de carbono. É preciso considerar os fluxos de água associados às diferentes fontes de energia. Energia e água são inseparáveis no metabolismo urbano.
A contribuição de Allan foi revelar que os fluxos invisíveis sustentam as estruturas aparentes. No Brasil, parte da vida urbana repousa na regularidade das chuvas que alimentam os canaviais. O tanque de combustível é um reservatório indireto de água verde. A cidade moderna permanece dependente da natureza, apenas reorganizou essa dependência em redes técnicas complexas.
Pensar os urbsistemas a partir da água virtual obriga a ampliar a escala da análise urbana. A cidade não termina em seus limites geográficos. Estende-se por territórios agrícolas, redes energéticas e ciclos hidrológicos. Seu metabolismo é territorialmente expandido. Reconhecer essa condição pode ser um passo para construir cidades mais resilientes em um mundo de instabilidade climática.
Fonte: artigo de Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP.
