Em artigo publicado no Campo Grande News, o professor Paulo Nassar analisa o que chama de “pedagogia da postergação” na sociedade contemporânea. Segundo ele, as pessoas aprendem desde cedo a colocar o sentido da vida em um futuro idealizado, o que leva à banalização do cotidiano. O autor afirma que as rotinas, os pequenos gestos e os vínculos ordinários são vistos como algo menor, enquanto a vida “verdadeira” estaria no extraordinário.
Nassar cita o psiquiatra e filósofo Viktor Frankl (1905–1997), que falou em uma “metafísica do cotidiano”. Frankl, sobrevivente do Holocausto deportado para campos ligados a Auschwitz e Dachau, onde perdeu seus pais, irmão e esposa, sugeria que o banal não é desprovido de profundidade. Para ele, é no cotidiano que ocorre o encontro entre o finito e o infinito.
O artigo defende que o extraordinário pode estar escondido no ordinário, em práticas como cuidado, responsabilidade, memória partilhada e atenção ao outro. Nassar ressalta que, em tempos marcados por velocidade e ansiedade, a capacidade de estar presente no vivido é um ensinamento importante, especialmente para professores transmitirem a seus alunos.
O autor menciona dois estudos que respaldam essa visão. Um experimento intitulado Short-Form Videos Degrade Our Capacity to Retain Intentions, apresentado na conferência ACM CHI 2023 em Hamburgo por pesquisadores da Ludwig-Maximilians-Universität München, mostrou que o consumo de vídeos curtos prejudica a memória prospectiva, ou seja, a capacidade de sustentar intenções ao longo do tempo.
Uma meta-análise conduzida por Lan Nguyen e colaboradores da Griffith University, publicada em 2025 no periódico Psychological Bulletin, analisou 71 levantamentos com mais de 98 mil participantes. A pesquisa apontou associação entre consumo intenso de plataformas de vídeos curtos e enfraquecimento da atenção sustentada. Para Nassar, esses dados sugerem uma “crise da duração”, que afeta a experiência profunda e o pensamento elaborado.
O artigo questiona se, diante de plataformas que educam para a fragmentação, a universidade e outras organizações sociais não deveriam educar para a duração. Nassar vê uma dimensão ética na docência: transmitir a importância do cotidiano é ensinar resistência em um tempo que banaliza a presença.
O autor conclui que dignificar o cotidiano é reconhecer espessura no aparentemente simples. Gestos como responder a uma mensagem com cuidado, preparar uma refeição, escutar alguém, ensinar uma aula ou cultivar um jardim podem ser expressão de sentido. “A vida não está esperando para começar. Ela está acontecendo agora”, afirma.
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