Hannah Julia, de 8 anos, morreu no dia 29 de abril após passar por quatro atendimentos em unidades de saúde de Campo Grande. Ela foi uma vez ao CRS (Centro Regional de Saúde) Cophavilla e três vezes à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Leblon.
Os pais da menina acreditam que houve negligência e que faltaram equipamentos e assistência adequados, principalmente na UPA. Uma jovem também recebeu atendimento na mesma unidade próximo à data, que está sendo questionado. Essa paciente teve um aneurisma cerebral e morreu dois dias antes de Hannah.
A família falou sobre o caso no dia 8, às vésperas de ajuizar uma ação contra o Município. A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) ainda não se manifestou sobre os relatos.
Supervisor de obras, pastor e pai de Hannah, Jeremias Rodrigues, 53, lamenta ter precisado desfazer a festa que organizou para o aniversário da filha, que seria na próxima terça-feira (12). Ele se emociona ao dizer que também não terá a companhia dela todas as manhãs.
“Não consigo mais acordar e fazer minhas leituras porque tenho a sensação de que ela vai chegar e falar: ‘você está aí, seu cabeçudo’. A Hannah pegava o tablet dela e ficava do meu lado, perguntando o que eu estava lendo, ela sempre se interessava. Antes de dormir, orava por mim, pela irmã e pela mãe todos os dias”, conta.
Dona de casa e mãe da criança, Sara Romeiro relata que passou cerca de 20 minutos com a filha nos braços na UPA Leblon, andando de porta em porta tentando encontrar uma sala onde pudessem medicá-la. “Me deram duas ampolas de medicamento na mão e em toda a sala que eu entrava para deixar ela, falavam que não era lá. Não tinha vaga”, diz a mãe.
A paciente começou a ficar rígida, a ter dificuldade para respirar e a convulsionar, segundo os pais. “Foi aí que se apavoraram, pegaram ela do meu colo, desocuparam uma maca para ela deitar e não deixaram mais eu ficar perto”, continua Sara.
Jeremias afirma que não havia cilindros de oxigênio na UPA e que o ambu, usado para ventilação manual, estava aparentemente com defeito. Depois, conforme o que a equipe informou aos pais, Hannah foi entubada. Morreu horas depois, de madrugada.
A menina foi levada ao CRS em 24 de abril por estar com sintomas respiratórios e febre alta. Os primeiros exames apontaram um quadro viral. Foi levada à UPA no dia 27, após uma piora. A glicemia foi aferida e estava em 151 mg/dL, de acordo com o que Sara ouviu de uma médica. “Ela disse que era normal, mas estranhei”, afirma.
No CRS e na UPA, a paciente recebeu dipirona e soro fisiológico. Os pais foram orientados a levar a criança para casa três vezes. Só teriam que retornar caso ela se sentisse mal novamente. Com vômitos constantes e inchaço ao redor dos olhos, ela esteve na UPA Leblon duas vezes no dia 28. Na última ida, já estava pálida, com dores em todo o corpo, inclusive na nuca, e não conseguia andar. Outro sintoma era calafrio.
Um raio-x e mais outros novos exames seriam feitos, mas a mãe pediu que a medicação fosse dada antes devido ao estado da menina. O atestado de óbito que a família recebeu diz que houve uma parada cardiorrespiratória com choque por motivo a esclarecer. A família aguarda sair um laudo do Imol (Instituto Médico e Odontológico Legal).
“Ela estava ‘dando’ estrelinha no último domingo. A gente não foi na UPA para passear. A gente foi porque precisava de socorro imediato, vendo o estado dela. Ela não vai voltar. Queremos Justiça para que outras pessoas não passem por isso”, finaliza o pai.
